EUA-México – 26. junho 2018

Separação de famílias na fronteira EUA/ México

Entrevista a Teresa Ngigi

Entrevista a Teresa Ngigi, Conselheira Global Psicossocial e de Saúde Mental das Aldeias de Crianças SOS Internacional.

“Crianças separadas de cuidadores na fronteira dos EUA precisam agora de estabilidade e previsibilidade”, diz Teresa Ngigi.

P. Quando as crianças são tiradas dos pais nas fronteiras, o que experienciam a nível emocional e psicológico?

Toda criança separada de um dos pais ou cuidador nestas condições já passou por experiências difíceis durante a migração. No momento em que são arrancados dos seus cuidadores na fronteira, eles já estavam a ser submetidas a uma situação de grande stress porque, embora estivessem com um dos pais, estavam longe de familiares e do seu contexto no local de origem. Não é como se as crianças estivessem sentadas na beira da estrada e fossem repentinamente levadas embora.

Eles terão já vivido situações de fome, sede, cansaço e estado acompanhadas por um pai / mãe sob stress durante a migração. Este episódio de separação agrava o stress que a criança vivencia e pode levar ao stress tóxico. Para as crianças é muito difícil perceber o que está a acontecer ao seu redor.

Esta é uma experiência muito difícil para uma criança. Tais circunstâncias adversas ativam hormonas de stress e a criança entrará numa reação de luta ou fuga. Nesta situação, todas as outras faculdades serão inativadas porque a criança precisa de sobreviver. Dormir, fazer adigestão bem como outras funções, estão agora suspensas porque a criança tem que sobreviver a esta experiência adversa…

P. O que acontecerá a uma criança quando esta experiência adversa for prolongada?

Se esta experiência adversa não for protegida por um ambiente seguro, a criança permanecerá neste nível de stress tóxico e isso pode ter impacto no desenvolvimento da criança ou levar a doenças físicas, como doenças autoimunes, diarreia, problemas de crescimento, entre outros, porque o sistema imunológico da criança será afetado.

Esta criança não consegue dormir, pode ter problemas de confiança, vai ter dificuldades de  vinculação porque se sente desconfiada. Quando uma experiência adversa acontece, as crianças precisam que os seus cuidadores ofereçam segurança, proteção e nutrição para que não fiquem em "alerta" o tempo todo.

P. É importante que estas crianças saibam o que aconteceu com os seus pais?

Estas crianças podem-se sentir abandonadas. Especialmente as mais pequenas, os bebés, sentirão isso porque não sabem o que aconteceu aos seus pais. O que estamos a perceber é que as autoridades que cuidam destas crianças não se devem relacionar com elas, nem abraçar. E a criança permanece em "alerta". O futuro da criança é muito incerto e isso continuará a afetar todas as suas faculdades. Como é difícil entender a situação, a criança pode até culpar os pais por abandono.

O que vemos nas famílias SOS é que quando as crianças abandonadas obtêm estrutura e afeto, elas florescem porque as crianças são resilientes.

P. Isso aconteceu e não pode ser desfeito. O que agora pode ser feito para ajudar estas crianças?

Não há uma solução rápida para esta situação. O primeiro passo é fazer com que as crianças se sintam protegidas. Se as crianças não se sentirem protegidas, as suas vidas podem ser destruídas.

Os adultos que cuidam destas crianças nos diferentes tipos de instalações precisam de ajudar a garantir estrutura às crianças. Elas precisam de ter comida suficiente, de dormir descansadas, de brincar e de ter atividades estruturadas para libertarem o stress. Brincar é muito importante para restabelecer a vida de uma criança. Tanto quanto é humanamente possível, a criança precisa que a ajudem a entender o que vem a seguir: "Se eu acordar amanhã de manhã, o que posso esperar?"

A criança precisa de ser “autorizada” a se reconectar com ela mesma porque pode encontrar-se muito, muito fragmentada. Isso é chamado de integração interna e é necessário para a cura. As crianças são muito resistentes. A neuroplasticidade, onde as células cerebrais podem ser alteradas, mostrou que o cérebro pode se religar e a experiência e as consequências adversas podem ser mitigadas.

Seguindo uma ordem executiva para parar de separar crianças de seus pais nas fronteiras, um plano alternativo é manter estas famílias confinadas a lugares como bases militares. Que efeito pode isto ter nas crianças?

Isso é institucionalização e traz vários efeitos negativos. O vínculo é muito importante, mas em tal lugar pode ser difícil. Nas instituições, há maiores probabilidades de abuso e maus tratos. Precisamos de nos preparar para problemas terríveis porque não saberemos o que acontece por trás desses muros.

Mesmo que a criança e os pais estejam juntos, isso ainda é um ambiente fechado e a família não terá liberdade, o que terá um impacto sobre a criança e sobre o cuidador.

P. O que pode ser feito para proteger estas famílias, nessas circunstâncias?

Se possível, deve ser fornecido apoio psicológico nesses "acampamentos". E é importante tornar os acontecimentos previsíveis para as crianças. Um pouco de estabilidade é melhor que nada. Seria bom que as Aldeias de Crianças SOS tivessem a oportunidade de fazer isso, porque sabemos como fornecer apoio e criar Espaços Amigos da Criança. Temos programas para os cuidadores lidarem com essa situação - essa é a nossa força. Em Tartous e Aleppo, na Síria, temos exemplos muito bons de como isso funciona. Os pais precisam de competências para lidar com o stress emocional e isso faz uma enorme diferença para a criança!

Teresa Ngigi está atualmente na Síria e irá viajar para a Somália em breve. Trabalha para as Aldeias de Crianças SOS desde 2016, oferecendo apoio a programas de cuidados alternativos e emergências.