Vasco, o empreendedor

 

Convidamos o Vasco para um final de tarde solarengo e dois dedos de conversa. É sempre bom receber e acarinhar os “nossos” miúdos. Cresceram aqui, criaram laços familiares, amizades e ainda hoje nos visitam regularmente. A nós e a Aldeia SOS que os viu crescer.

O Vasco, de sorriso envergonhado, é hoje um rapaz de 24 anos. Tímido, bastante reservado e de um enorme coração, encanta todos ao citar grandes autores sobre a vida. Gosta de ler, adora o seu cão, paixão da sua vida, e sonha um dia em ter a sua própria empresa e três filhos.

Quando chegou à Aldeia SOS de Bicesse tinha apenas 6 anos. Chegou com as duas irmãs mais velhas e na bagagem uma infância que nenhuma criança deve ter. Problemas financeiros e relacionados com alcoolismo, levaram Vasco e as irmãs até às Aldeias de Crianças SOS. Dos momentos que viveu com os seus pais biológicos, são poucas as recordações. Lembra-se de viver num prédio abandonado e pouco mais.

As suas memórias foram construídas a partir do dia em que entrou nervoso e assustado na Aldeia SOS. “Acredito que se não fosse a Associação não seria o que sou hoje.”, confessa.

“Percebi que tive uma segunda oportunidade de vida ao entrar na Aldeia SOS. Tive acesso a uma boa educação, cuidados de saúde e tive aquilo que considero o mais importante: referências.”

Das grandes referências que leva para a vida, conta-nos que 5 pessoas marcaram a sua vida para sempre: a sua Mãe SOS, o Responsável pelo Programa de Autonomia, Salvador, as educadoras Sara e Sandra e o educador Tiago.

“A Minha Mãe (SOS) foi a minha referência familiar e a nossa casa era o sítio onde me sentia seguro neste mundo. Hoje ela  vive perto de mim e é uma pessoa que vou levar para o resto da minha vida. Vou jantar lá a casa muitas vezes e passeamos também. Temos uma relação muito próxima.

O Tiago foi das pessoas mais importantes da minha vida. Na escola secundária era vítima de bullying, não gostava da escola onde andava e estava prestes a desistir dos estudos quando o Tiago me mostrou outro caminho. Mudei de escola para uma escola mais calma, mais parecida comigo, para um curso mais prático, criei amizades e hoje exerço a profissão que estudei: hotelaria.”

Quando fez 18 anos, passou a viver num dos Apartamentos de Autonomia da Associação. Diz que esse é outros dos momentos mais marcantes, pois teve o apoio do Salvador nesta etapa tão difícil para um jovem, aprendeu a gerir o seu dinheiro, gerir as contas e ser responsável.

Hoje é chefe de turno no ramo de Hotelaria, está a criar o seu próprio negócio, uma linha de roupa, mas sonha ainda mais alto. “Um dia gostava de criar a minha própria empresa. Gostava de criar algo que melhorasse a vida dos outros.”

Ao despedirmo-nos, dizemos um “até já” e o Vasco, com o seu ar muito tranquilo e decidido, diz-nos: “Vou citar outro autor: Devemos abraçar o nosso destino.” 

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