Aproveito este texto dizendo que sinto um enorme privilégio de articular com vários artistas nos projectos dos quais faço parte, e que também utilizo muito a arte no trabalho que desenvolvo (individualmente), quer com grupos, quer individualmente. Especificando um pouco: quer enquanto psicóloga da Orquestra Geração (com acompanhamentos individuais e em grupo), quer enquanto directora do Lupa, quer enquanto terapeuta nos grupos de psicodrama (uma psicoterapia individual em grupo) ou de teatro playback terapêutico, quer enquanto psicóloga nos acompanhamentos individuais em consultório, o cruzamento com o trabalho de diversos escritores, pintores, músicos, coreógrafos, pensadores vai brotando a cada intervenção, permitindo aos participantes aceder ao “seu mundo interno” através da arte, e, por vezes, também eles, poderem expressar-se através de diferentes formas para além da verbal, como escrever, pintar, dramatizar, cantar, dançar…
Sem dúvida que, ao longo destes 20 anos de experiência, tenho a sorte de observar o poder que a arte traz, quer no usufruto do contacto com o trabalho de/com artistas, quer na possibilidade dos participantes se surpreenderem e experimentarem eles próprios diferentes possibilidades de expressão através da arte.
Dando um exemplo concreto: já por várias vezes nos deparámos com salas de aula onde íamos intervir (quer no contexto musical, quer teatral) e onde o “clima” parecia pouco disponível para uma intervenção/sessão/apresentação (quer pelo facto de o ambiente estar um pouco confuso/agitado, quer por parecerem desinteressados) e sentir que, quando a arte aparece, seja através do som/da música, seja através da diferença do ambiente (luzes, cores, figurinos), ou outras, quando a “arte aparece”, a captação acontece. Parece, de facto, mágica, sublime (utilizando a palavra do Damásio e do Laborinho Lúcio), esta capacidade da arte surpreender, conectar, agregar os seres humanos.
E aqui, importa uma ressalva de algo base para tudo isto acontecer: a arte em ligação com os afectos, com as emoções. Como disse João dos Santos: “Homens capazes de Amor são aqueles que foram crianças ou que se reconciliaram com a criança que foram”.