Daniela Leal

// Fala sobre Cultura e Lazer

Conversa com especialista

Daniela Marques Leal

Breve nota curricular: 

Nasceu em 1980, em Lisboa.

Licenciou-se em Psicologia, pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada, onde se especializou na área de Psicologia Clínica, em 2004. É membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

No seu caminho repleto de muitas experiências, desenvolveu-se em diferentes funções, como educadora de rua, coordenadora, formadora, curinga e atriz de teatro de intervenção social, tendo a base assente no seu papel enquanto psicóloga. Trabalhou em contexto hospital (Hospital Pulido Valente) e escolar (EB 2,3 Miguel Torga e Escola Profissional Metropolitana) e tem colaborado com diversas associações como a Conversas de Rua, a Pressley Ridge, a ATLA e, actualmente, a  AOSJSP - Associação das Orquestras Sinfónicas Juvenis Sistema Portugal (da qual a Orquestra Geração e de Afectos fazem parte) e Associação cultural Lupa em Cena, da qual é sócia fundadora e presidente. Neste momento, para além do trabalho com a Orquestra Geração e Orquestra de Afectos e do Lupa Grupo de Teatro, encontra-se a terminar a especialização em psicodrama, pela SPP, faz parte de uma equipa de teatro playback terapêutico (dirigiu já, em equipa terapêutica, um grupo de terapia de grupo pelo teatro playback) e trabalha em consultório privado. Um dos seus maiores prazeres é a dança contemporânea, que nunca mais deixou desde que se descobriu nela, em 2009.

A importância da arte e do lazer na infância/juventude

Sem dúvida que o tema da arte e da sua importância para o desenvolvimento humano, tem vindo a ser aflorado nos últimos tempos de forma mais premente. Vão aparecendo no panorama nacional diversos projectos que cruzam a área social com a artística em diferentes contextos, e, embora já muito caminho tenha sido “desbravado”, há ainda muito a fazer, para que, por um lado, este trabalho possa ter o devido reconhecimento e crescimento, e, por outro, que se possa desenvolver com o devido tempo, rigor e qualidade, com os apoios necessários, nomeadamente para os artistas e técnicos sociais envolvidos na sua concepção, desenvolvimento e avaliação, o que, no panorama nacional em que vivemos, é um enorme desafio.

Gostaria de começar por referir 3 autores de referência para o trabalho que desenvolvo em torno desta área, nos diferentes projectos que integro, onde a arte está implícita. António Damásio, João dos Santos e Álvaro Laborinho Lúcio, que aqui trago, são alicerces que considero importantes para podermos reflectir sobre estas questões da arte e da infância.

João dos Santos refere “é o sonhar e o fantasiar que permite que a criança encontre a sua razão e plante raízes que não lhe deixam mesmo na fase adulta, assumindo a comunicação como capaz de registar emoções e de as manifestar”, lembrando que o desenvolvimento da inteligência não se pode divorciar da capacidade de imaginar e de fantasiar, de ir mais além, alcançando uma dimensão espiritual, mágica.

Laborinho Lúcio Educação é da opinião de que “vivemos perturbados e preocupados com a necessidade de gerar competências, competências, competências. E não nos damos conta de que encharcamos as crianças de tal maneira com competências que nunca chegamos a saber quais são as suas capacidades”. Devemos partir desde logo da consciência de vivermos numa sociedade complexa e pautada pela diversidade e, segue o autor neste pensamento, a arte é a forma de transcendência do ser humano na terra. É por aí que se consegue a sublimação de cada um de nós e se atinge o máximo da expressão de cada um de nós.

Damásio coloca a arte ao mesmo nível da ciência e da tecnologia, dado que é "uma via alternativa que nos ajuda a superar os problemas que a condição humana nos coloca". Refere que a arte é "um meio de transformação dos universos que nos rodeiam, mas também do nosso interior", pelo que a arte será a "resolução afectiva e intelectual do problema", uma passagem para um "estado sublime".

Partindo destes alicerces, passo a fazer uma breve partilha acerca dos projectos que tenho privilégio integrar, nos seus diferentes cruzamentos da arte com as pessoas que deles fazem parte: profissionais, participantes e comunidade em geral.

Na Orquestra Geração (um dos projectos do qual faço parte), procura-se integrar, precisamente, a área social com a artística, oferecendo apoio social a crianças e jovens oriundos de bairros ditos difíceis, onde impera a marginalidade e onde, por norma, o tecido familiar é muito frágil.

Este projecto iniciou em 2007, e tem como objetivo através da música (da prática intensiva de orquestra, um trabalho conjunto por excelência), incorporar as crianças ou jovens na sociedade, promovendo o bem-estar, o respeito pelo outro, a cooperação. Importa-nos o desenvolvimento harmonioso da sua personalidade, combater o absentismo escolar, a saída para a marginalidade. Reconhecendo o trabalho hercúleo que está por fazer neste campo, a música é também um veículo para acolher as crianças refugiadas e migrantes, bem como aquelas que, constituindo os habitantes dos territórios nos quais as escolas se situam, não se encontram representadas em grande parte dos cancioneiros usados para intervenção musical. Desde sempre que integram o projecto crianças em situação de acolhimento. O projecto Orquestra Geração encontra-se em diferentes concelhos do país, e engloba já mais de 1500 crianças. Na sequência do trabalho desenvolvido na Orquestra Geração (a partir do 1º ciclo) nasce, há 7 anos atrás, a Orquestra de Afectos, um programa que foi apoiado pelo PARTIS - Fundação Calouste Gulbenkian, desenvolvido em Jardins de infância, cujo principal objectivo passa por contribuir para o estabelecimento de relações fundadas na afetividade, no contexto do grupo, privilegiando processos de sociabilização e convocando a contribuição de todos os agentes educativos para a consolidação de uma comunidade.

Outro dos projectos que integro intervém através do teatro: o trabalho que o Lupa - Grupo de Teatro desenvolve (desde 2012) tem por base uma poética que mistura metodologias do Teatro do Oprimido, Sociodrama, Teatro Espontâneo e de Improviso.

Os espectáculos são compostos por diferentes cenas, que incidem sobre diferentes problemáticas pessoais e sociais, de acordo com as populações a quem se dirigem, que podem ir de crianças dos 3 aos 6 anos (com a peça VaiVem), a jovens, adultos ou idosos.

Durante as apresentações, o público é estimulado a encontrar estratégias mais adequadas, saudáveis e construtivas perante os problemas em discussão, podendo dar a sua opinião e, inclusivamente, substituir personagens.

Aproveito este texto dizendo que sinto um enorme privilégio de articular com vários artistas nos projectos dos quais faço parte, e que também utilizo muito a arte no trabalho que desenvolvo (individualmente), quer com grupos, quer individualmente. Especificando um pouco: quer enquanto psicóloga da Orquestra Geração (com acompanhamentos individuais e em grupo), quer enquanto directora do Lupa, quer enquanto terapeuta nos grupos de psicodrama (uma psicoterapia individual em grupo) ou de teatro playback terapêutico, quer enquanto psicóloga nos acompanhamentos individuais em consultório, o cruzamento com o trabalho de diversos escritores, pintores, músicos, coreógrafos, pensadores vai brotando a cada intervenção, permitindo aos participantes aceder ao “seu mundo interno” através da arte, e, por vezes, também eles, poderem expressar-se através de diferentes formas para além da verbal, como escrever, pintar, dramatizar, cantar, dançar…

Sem dúvida que, ao longo destes 20 anos de experiência, tenho a sorte de observar o poder que a arte traz, quer no usufruto do contacto com o trabalho de/com artistas, quer na possibilidade dos participantes se surpreenderem e experimentarem eles próprios diferentes possibilidades de expressão através da arte.

Dando um exemplo concreto: já por várias vezes nos deparámos com salas de aula onde íamos intervir (quer no contexto musical, quer teatral) e onde o “clima” parecia pouco disponível para uma intervenção/sessão/apresentação (quer pelo facto de o ambiente estar um pouco confuso/agitado, quer por parecerem desinteressados) e sentir que, quando a arte aparece, seja através do som/da música, seja através da diferença do ambiente (luzes, cores, figurinos), ou outras, quando a “arte aparece”, a captação acontece. Parece, de facto, mágica, sublime (utilizando a palavra do Damásio e do Laborinho Lúcio), esta capacidade da arte surpreender, conectar, agregar os seres humanos.

E aqui, importa uma ressalva de algo base para tudo isto acontecer: a arte em ligação com os afectos, com as emoções. Como disse João dos Santos: “Homens capazes de Amor são aqueles que foram crianças ou que se reconciliaram com a criança que foram”.

As Aldeias de Crianças SOS são a maior organização do mundo a apoiar crianças e jovens em perigo ou em risco de perder o cuidado parental.
 

Acredite num mundo onde todas as crianças crescem em amor e segurança. 

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