Dia Mundial da Ajuda Humanitária

‘Em Gaza, não se escolhe ser um trabalhador humanitário, é preciso fazê-lo’

Reem Alreqeb

No Dia Mundial da Ajuda Humanitária, homenageamos o trabalho de humanitários como Reem Alreqeb, Diretora Interina do Programa das Aldeias de Crianças SOS na Faixa de Gaza. Nesta entrevista, Reem, que se juntou às Aldeias de Crianças SOS em 2022, fala sobre o que a mantém motivada no meio da guerra e dos desafios de prestar apoio humanitário às crianças e aos seus cuidadores em Gaza.

O que a inspirou a tornar-se um humanitário?

Nós, na Palestina, sobretudo em Gaza, passámos por várias guerras, pelo que os habitantes de Gaza necessitam sempre de intervenções humanitárias. Sentes constantemente que precisas ajudar as pessoas necessitadas, sendo um ser humano. Cresci com um pai que utilizava o seu tempo depois do trabalho como voluntário numa das organizações comunitárias, que prestava ajuda a famílias vulneráveis. Penso que em Gaza não se escolhe ser um trabalhador humanitário. É necessário fazê-lo, pois as crises que atravessamos não são fáceis de ultrapassar.

 

Pode descrever o seu dia normal de trabalho?

Antes da guerra, eu acordava entusiasmada para trabalhar. Começava um dia normal, conhecia pessoas que precisavam de ajuda, encaminhava-as para onde poderiam recebê-la, elaboraria relatórios, atualizaria planos. Hoje em dia acordo muito cedo por causa do calor da tenda onde vivemos, dirijo-me ao escritório situado dentro do acampamento de caravanas e começo a trabalhar nas minhas tarefas. Estas incluem sermos confrontados com inúmeros obstáculos e necessidades às quais temos de trabalhar arduamente para responder, apesar das circunstâncias. Acompanho as notícias da guerra e as atualizações de segurança, verifico os nossos acampamentos em Khan Younis e Deir Al Balah, envio alguns e-mails quando a ligação à internet está estável.

 

Quais são alguns dos maiores desafios que enfrenta na sua função?

Fornecer tudo o que as crianças necessitam durante a situação crítica em que Gaza se encontra. Fico a pensar o que aconteceria se tivessemos de nos deslocar outra vez: Para onde iríamos? O que faríamos?

 

Pode partilhar um momento ou uma história memorável do seu trabalho humanitário?

Peço desculpa por não partilhar um momento feliz, mas o momento mais memorável que tive desde 7 de outubro foi quando decidimos deixar as Aldeias de Crianças SOS em Rafah devido a riscos de segurança. Tive de tomar uma decisão e foi muito difícil. Lembro-me do que as crianças pediram quando estávamos a fazer as malas para nos mudarmos para o acampamento. Um pediu-me para lhe trazer a bicicleta, outro para lhe trazer o brinquedo sem o qual não conseguia dormir. Tentámos trazer tudo o que pediram, mas não foi fácil, estávamos a trabalhar sob pressão. Não me esquecerei de sair da "aldeia" com o restante pessoal. Aviões de guerra atacavam, tínhamos medo, o carro avariou... Esperamos aterrorizados que volta-se a trabalhar.

 

O que a mantém motivada e esperançosa, apesar dos desafios que encontra no seu trabalho em Gaza?

Compreendo que prestamos serviços a muitas pessoas necessitadas, especialmente crianças não acompanhadas e separadas, e reunimo-las com as suas famílias. Quando conseguimos reunificar uma criança com os seus familiares, quando prestamos assistência a uma família vulnerável, isso mantém-nos motivados e recarrega energias.

 

Na sua opinião, o que mais pode ser feito a nível mundial para apoiar os esforços humanitários em Gaza?

Sinto sempre que as pessoas fora de Gaza ainda não compreendem a situação em que nos encontramos. A guerra tem de terminar e a resposta às necessidades humanitárias da população de Gaza tem de começar rapidamente.

As Aldeias de Crianças SOS são a maior organização do mundo a apoiar crianças e jovens em perigo ou em risco de perder o cuidado parental.
 

Acredite num mundo onde todas as crianças crescem em amor e segurança. 

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