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Colômbia – 3. maio 2018

Ajudar os refugiados da Venezuela

Entrevista a Ângela Maria Rosales

Ângela Maria Rosales, diretora nacional das Aldeias de Crianças SOS da Colômbia, diz que a organização está bem organizada na ajuda às famílias que estão a fugir da Venezuela. A Colômbia tornou-se o maior país de destino para os que estão a fugir da situação política e económica do país vizinho, a Venezuela, tendo cerca de um milhão de venezuelanos a viver no país e milhares de pessoas a atravessar a fronteira todos os dias.

A Colômbia não é o único país procurado. Cerca de 1,5 milhões de venezuelanos foram deslocados no ano passado, alguns procuram refúgio no Brasil e noutros países da América. Mas na Colômbia, a situação dos refugiados está no topo da história da crise de deslocamento interno do país, que continua a crescer, apesar do acordo de paz de 2016, entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Mais de sete milhões de pessoas – cerca de 15% da população – foram deslocadas apenas em 2017, segundo as estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU).

As Aldeias de Crianças SOS da Colômbia estão particularmente preocupadas com os riscos que as crianças refugiadas enfrentam, enquanto as suas famílias lutam para encontrar abrigo, comida e serviços de saúde. Algumas famílias venezuelanas foram ajudadas através do Programa de Fortalecimento Familiar, mas a procura de ajuda cresce.

 

“Este é um momento difícil na Colômbia porque há muitas consequências do processo de paz. Existem gangues e grupos armados ilegais que estão a reformar e a deslocar populações em vários sítios do país. Agora estamos perante uma situação em que os venezuelanos estão a emigrar para a Colômbia e ao mesmo tempo temos o deslocamento resultante do conflito interno”. diz Ângela Maria Rosales, Diretora Nacional das Aldeias de Crianças SOS da Colômbia.

A Ângela Rosales propõe ajudar a comunidade de refugiados que tem vindo a crescer, perto da Aldeia de Crianças SOS em Bucaramanga, uma cidade perto da fronteira venezuelana, através do fornecimento de espaços para crianças (Child Friendly Spaces [CFSs]) de modo a suprir algumas das necessidades urgentes das crianças e famílias. Estes centros fornecem atividades educativas, apoio psicológico e ainda assistência para ajudar as famílias a adquirir o registo legal na Colômbia e a terem acesso aos serviços públicos.

Na entrevista que se segue, Ângela Rosales fala sobre as necessidades dos refugiados e das famílias que têm sido deslocados internamente.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, indica que 1,5 milhões de venezuelanos foram deslocados, muitos deles viajaram para a Colômbia e para outros países da região. Que impacto isso teve na Colômbia? 

AR: Alguns venezuelanos conseguiram encontrar um emprego e um lugar para viver. Mas a maioria chegou à Colômbia praticamente sem nada, a não ser as suas próprias roupas e alguns pertences básicos. Existem cidades, perto da fronteira com a Venezuela, onde as pessoas estão a viver nos parques, a dormir no chão com o seus filhos. Algumas das crianças podem frequentar a escola, mas não têm onde morar e estão muito expostas... 

O que é também muito preocupante para nós, é que houve um aumento na exploração sexual de crianças e mulheres. As jovens mulheres são forçadas a trabalhar como prostitutas, de modo a conseguirem ter dinheiro para pagar uma renda. 

O que é que as autoridades estão a fazer para ajudar?

AR: O governo colombiano forneceu abrigo perto da fronteira com a Venezuela com serviços para as pessoas por um curto período de tempo – alguns dias até que se possam mudar para outros lugares do país. Esses abrigos oferecem uma primeira resposta e ajudam os refugiados com os seus documentos legais para que possam ter acesso aos serviços do governo.  

Os serviços de saúde e educação estão a prestar uma atenção básica às crianças venezuelanas que têm vindo a chegar, mas o serviço de saúde já não era muito forte antes desta crise e com a chegada de muitos venezuelanos, estes serviços estão quase esgotados. Essa é também a situação em que se encontram as escolas e alguns serviços para as crianças mais pequenas, como os jardins-de-infância e as creches.

Temos muitas famílias venezuelanas no nosso Programa de Fortalecimento Familiar, onde as condições sociais das mesmas no seu país natal não eram tão más, mas tiveram outras restrições que os levaram a deixar o país. Agora que eles vieram para a Colômbia, tiveram que deixar tudo para trás, sujeitando-se a viver em barracas e bairros muito pobres das grandes cidades. Todos os dias o número de famílias necessitadas aumenta. 

Como é a vida das famílias de refugiados? 

AR: Chegaram muitas crianças que perderam os seus cuidados parentais e que agora estão a viver em lares ou em instituições. Eles não têm como sustentar os seus filhos e então o estado ou determina que as crianças não podem estar com a família, ou a família entrega as crianças ao estado, porque não as podem sustentar. 

Temos tido mais pedidos de apoio em Bucaramanga e estamos a ficar muito preocupados porque não conseguimos oferecer mais apoio a essas famílias. Alguns temos conseguido apoiar em projetos específicos e no Fortalecimento Familiar, mas neste momento não estamos em condições de oferecer mais possibilidades para estas crianças e famílias, e lamentamos ver as crianças a perder o cuidado dos seus pais devido à instabilidade política da sua terra natal.  

Os venezuelanos conseguem encontrar trabalho na Colômbia para ajudar a sustentar as suas famílias? 

AR: Muitos venezuelanos estão a vender nas ruas, a pedir dinheiro nos transportes públicos, ou estão a ser empregados sem os requisitos legais completos. Nós, neste momento, podemos ver médicos, ou até mesmo arquitetos, que estão a implorar por dinheiro na rua, a lavar carros ou a vender comida para tentarem conseguir dinheiro para pagar uma renda e sustentar a família que os acompanha ou mesmo para enviar dinheiro para os restantes familiares que ainda se encontram na Venezuela. 

Algumas famílias venezuelanas atravessam a fronteira para a Colômbia para conseguir comida e regressar para casa, e fazem isso por algum tempo, na esperança que um dia elas finalmente voltem e fiquem. No entanto, outros vêm por semanas. Como não têm dinheiro para comprar comida foram criadas algumas cozinhas comunitárias. E algumas crianças estão a receber ajuda através de serviços sociais como os infantários, onde recebem alimentação. Mas para isso, a criança tem que estar a viver em condições muito precárias.

Existe um grande número de crianças a chegar a Colômbia sozinhas? 

AR: Existe e é também uma grande preocupação para nós. Algumas crianças estão a chegar à Colômbia para estudar por conta própria. Elas atravessam a fronteira, andam num período entre 3 a 4 horas sozinhas, estudam em cidades vizinhas e, no final do dia, regressam para a Venezuela. Existem assim, pessoas que se estão a aproveitar desta situação para exploração e abuso, causando assim um grande perigo para os grupos de crianças que se deslocam para aqui, para estudar. A maioria, volta para casa todos os dias mas alguns, sobretudo os adolescentes, permanecem no país sem qualquer tipo de apoio dos familiares. Eles correm pelas cidades à procura de uma forma de sobrevivência.

Com base nas avaliações que fez, quais são as maiores necessidades das crianças?

AR: Identificamos a necessidade da existência de mais espaços para as crianças (Child Friendly Spaces [CFSs]) e para famílias que passam pela Colômbia. Eles poderiam assim permanecer por alguns dias, antes de se mudarem para outras cidades, como Bogotá, Cali, Medellín e enquanto isso, as crianças poderiam ser protegidas. 

Muitas famílias ficam em Bucaramanga, que fica a cerca de duas horas da fronteira. Discutimos no gabinete do presidente, a ideia de se criar estes espaços para as crianças que têm vindo a chegar e não frequentam a escola e as suas famílias moram em barracas ou em abrigos. Mesmo para as crianças que estão na escola com as condições de vida da família não adequadas e que, por isso, passam demasiadas horas na rua. Estes espaços ofereceriam um lugar seguro durante o dia, enquanto elas não estão na escola. Estariam também disponíveis para todas as idades embora pretendamos ter uma elevada percentagem de raparigas nestes espaços devido ao crescente risco da exploração sexual, causado pelo ambiente onde elas vivem. 

Existem organizações internacionais que prestam assistência aos refugiados? 

AR: O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados e outras organizações estão a preparar algumas respostas e até algumas organizações iniciaram programas básicos para a população afetada que não têm como foco as crianças. Muitos governos locais gostariam de responder, mas não podem fazê-lo com os seus próprios recursos porque eles têm restrições legais para gastar fundos do governo em não nacionais.
 
Em Bucaramanga existem, pelo menos, 100 pessoas que vivem no parque em frente ao escritório do presidente. Os governos locais estão dispostos a responder e precisam de apoio. Tivemos reuniões com eles sobre como as Aldeias de Crianças SOS poderiam ajudar, com os Espaços Amigos da Criança (CFSs) e apoio familiar. 

A Colômbia tem uma grande população de pessoas deslocadas pelos conflitos históricos do país. Essa experiência ajudou-a a pensar em formas de ajudar esta nova onda de refugiados? 

AR: Este é um momento difícil na Colômbia porque existem muitas consequências do processo de paz. Existem gangues e grupos armados ilegais que estão a deslocar populações em vários sítios do país. Agora estamos perante uma situação em que os venezuelanos estão a emigrar para a Colômbia e ao mesmo tempo temos o deslocamento resultante do conflito interno.

As experiências que as Aldeias de Crianças SOS da Colômbia tiveram no passado – trabalhar com crianças que estão a sair dos grupos armados e trabalhar com pessoas que foram deslocadas e estão no Programa de Fortalecimento Familiar, e até o trabalho de resposta de emergência que fizemos em Mocoa em 2017, devido às inundações, ajudaram-nos a preparar. Agora, temos mais capacidade de pensar em soluções e formas de conseguirmos ser mais eficazes em responder a emergências deste tipo. 

O que mais podem fazer as Aldeias de Crianças SOS nesta situação desafiante? 

AR: Estamos preocupados com as crianças que foram separadas das suas famílias, devido a esta situação. Isso tocou-nos bastante. Percebemos que esta é uma oportunidade para trabalhar a reintegração social e apoiar estas famílias de forma legal, para que elas tenham acesso a serviços públicos e possam retomar os cuidados aos seus filhos. Não queremos apenas impedir que aqueles que estão a chegar da Colômbia sejam separados, mas também queremos ajudar a reintegrar os que já estão separados porque a família não possuía recursos para cuidar dos seus filhos. 
 

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