“A minha Aldeia SOS de Bicesse”

Testemunhos de 50 anos de acolhimento

28.04.2017 - "A minha relação com a Aldeia de Crianças SOS de Bicesse iniciou-se mais activamente a partir de 1976, ano em que terminava o Secundário e decorreu o primeiro Acampamento de férias SOS no Meco."
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Em 1964, Maria do Céu Mendes Correia e Palmira Cabrita Matias, fundaram a Associação das Aldeias de Crianças SOS de Portugal, juntamente com alguns amigos e Hermann Gmeiner, fundador das Aldeias de Crianças SOS Internacional. Em 1967, inaugurou-se a Aldeia SOS de Bicesse, com três casas e instalação das primeiras famílias SOS.

Em outubro de 2017, a Aldeia SOS de Bicesse está maior, cheia de vida e comemora 50 anos! Meio centenário de acolhimento e de um modelo que percorre o mundo, reconstruindo famílias para crianças cuja infância merece uma segunda oportunidade.

Por esta Aldeia SOS, passaram mais de 200 pessoas, que aqui cresceram, encontraram uma nova casa, um novo destino, um novo aconchego. Também por aqui passaram dezenas de técnicos, Mães SOS, Tias, voluntários, colaboradores que deram sentido ao dia-a-dia desta Aldeia SOS. Em 2017, quisemos recolher testemunhos de quem passou pela primeira Aldeia SOS em Portugal. Partilhamos histórias, emoções, memórias, desejos para o futuro. Aqui ficam alguns destes testemunhos.




Manuel Matias, 58 anos.

Como e quando começou a sua relação com a Aldeia SOS de Bicesse? O que faz atualmente nas Aldeias de Crianças SOS/ ou fora?
A minha relação com a Aldeia de Crianças SOS de Bicesse iniciou-se mais activamente a partir de 1976, ano em que terminava o Secundário e decorreu o primeiro Acampamento de férias SOS no Meco. Conheci a Aldeia de Crianças SOS por dentro ainda antes de apreender melhor o conceito e a missão, pela minha ligação familiar a uma das sócias fundadoras Dra. Palmira Cabrita Matias, minha tia, pelo envolvimento dos meus pais, mas também através da amizade com as crianças e jovens residentes de então da Associação das Aldeia SOS de Portugal que até à data se identificavam com a primeira Aldeia que este ano irá celebrar 50 Anos.

Nos anos seguintes e durante o período em que frequentei a Universidade, fui como muitos voluntários da Aldeia SOS de Bicesse, explicador (…de matemática). Posteriormente, após a minha licenciatura, e a convite das fundadoras fui-me envolvendo enquanto voluntário, a par da minha actividade profissional, no planeamento e controlo de gestão da Associação, tendo mais tarde integrado vários Conselhos Fiscais e Directivos da mesma. Mais recentemente, de há 4 anos para cá assumi funções de Director de Marketing e Angariação de Fundos estando actualmente como responsável das relações com organizações.

Que memórias especiais guarda das crianças que lá cresceram?
Guardo muitas e boas recordações desse tempo em particular dos momentos de convívio com os jovens de então: Festas de Aniversário da Aldeia SOS de Bicesse, Santos Populares e alguns bailaricos memoráveis no salão. Posteriormente as Tias (…eram assim que eram conhecidas as sócias fundadoras) pediram-me que acompanhasse mais os jovens em saídas culturais ao fim de semana. Ainda hoje me correspondo com muitos dos ex-residentes de então e fico feliz de saber que muitos são hoje mães e pais de família muito responsáveis e enquanto cidadãos um exemplo a seguir pelas actuais crianças e jovens que acolhemos e educamos nas 3 Aldeias SOS em Portugal.
 
Fui compreendendo que, para além da realidade da Aldeia SOS enquanto edificado de casas familiares envolvido por bonitos jardins e espaços onde as crianças podem brincar em segurança, existe uma realidade igual ou mais importante: a uma comunidade de crianças residentes actuais e passadas, desejosas de se afirmar e partilhar na simplicidade, aspirações e momentos de felicidade com cuidadores e visitantes.

E para si, qual o momento mais marcante nos anos em que esteve ligado a esta Aldeia SOS? 
Um dos mais emotivos foi sem dúvida o da morte da fundadora Dra. Maria do Céu Mendes Correia. A Associação em 1964 e a Aldeia de Crianças SOS de Bicesse em 1967 nasceram da sua visão e paixão de acolher e educar muitas crianças em situação de grande vulnerabilidade social segundo o modelo pedagógico inovador para a época das Aldeias de Crianças SOS do médico austríaco Dr. Hermann Gmeiner. Foi notável a enorme capacidade que teve de envolver muitos colaboradores, sócios e simpatizantes na concretização do seu sonho que edificou, dirigiu e acompanhou até à hora da sua morte.

A Aldeia de crianças SOS de Bicesse foi por ela pensada e desenvolvida tal como ainda a conhecemos hoje. Nas suas exéquias fúnebres, na Igreja de Bicesse em Março de 2010, sentiu-se de forma especial a presença dos muitos ex-residentes, colaboradores, simpatizantes e benfeitores que quiseram vir prestar-lhe a sua devida e sentida homenagem.    


O que deseja para esta Aldeia SOS nos próximos anos?
Desejo que permaneça fiel aos príncipios da obra de proporcionar um lar de amor e uma família a muitas crianças que precisam e merecem ter uma infância feliz, e enquanto comunidade das crianças que aí habitam que se abra muito à Sociedade Portuguesa e proporcione oportunidades de desenvolvimento pessoal e comunitário num ambiente protector das crianças e respeitador dos seus direitos.

Que proporcione condições para a plena realização pessoal dos que se dedicam a elas, referindo-me em particular às Mães SOS, mas também ás equipas técnicas que as apoiam. Que crie espaço para o apoio necessário de muitos amigos, benfeitores e voluntários que assumiram no passado e assumem no momento presente o papel essencial de tornar a obra sonhada realidade e a desenvolver para que mais crianças possam ter um futuro feliz e um papel activo e responsável na construção de uma sociedade mais justa próspera e solidária.




Manuel Salvador Espírito Santo, 62 anos.

Como e quando começou a sua relação com a Aldeia SOS de Bicesse? O que faz atualmente?
Tudo começou há 20 anos, quando fui visitar uns amigos à Aldeia SOS da Guarda que me entusiasmaram a candida
tar-me ao cargo de Diretor da Aldeia SOS de Bicesse, então “órfã” dessa figura paterna. Fiz estágio de preparação nas Aldeias SOS da Guarda e de Gulpilhares, e só viria a conhecer a Aldeia SOS de Bicesse uns meses mais tarde, mas já a tinha no coração desde esse primeiro momento em que ouvira falar das suas Mães SOS, das suas crianças, das suas Casas e dos seus anseios.

Atualmente, sou o responsável pela área dos Jovens a nível nacional. Em Bicesse, acompanhoaldeia sos bicesse diretamente os Jovens das Casas de autonomia, e nas outras Aldeias SOS faço acompanhamento das equipas na implementação da política de Jovens e ex-Residentes. É como se a minha capacidade de entrega se tenha alargado às três Aldeias SOS, e onde quer que esteja procuro estar de alma e coração em tudo que faço.

Que memórias especiais guarda das crianças que lá cresceram?
Guardo algumas memórias de incerteza, de angústia e de preocupação, mas as mais especiais são as que estão carregadas de afetos positivos. Fui aprendendo a relacionar-me com cada pessoa de maneira singular, e a reconhecer o lado gratificante desta interacção. Inevitavelmente, me têm devolvido muito do carinho e da atenção que lhes tenho dedicado. Revela-se muito compensador pensarmos que quando começam a dá-lo é porque já o têm em abundância.

E para si, qual o momento mais marcante nos anos em que esteve ligado a esta Aldeia SOS?
Fiquei marcado por inúmeros gestos de partilha, de abnegação e de compromisso, que possibilitaram a construção conjunta de um relacionamento forte e duradouro. Todas as vezes em que me sentei à mesa da refeição familiar, sempre que foi preciso ir mais longe na invenção do sentido das frustrações, em vivências de intensa frontalidade face à renúncia e à ameaça, gesto a gesto consolidámos os valores com que nos definimos ao longo dos anos.

O que deseja para esta Aldeia SOS, nos próximos anos?
O meu maior desejo para esta Aldeia SOS é que continue a ser um local onde as crianças e jovens possam usufruir de um acolhimento maternal num ambiente familiar genuíno, onde novas mães sociais encontrem a confiança, a segurança e o suporte emocional indispensáveis para se aventurarem na sua missão educativa.