“A minha Aldeia SOS de Bicesse”

Testemunhos de 50 anos de acolhimento

28.04.2017 - “Fiquei marcado por inúmeros gestos de partilha, de abnegação e de compromisso, que possibilitaram a construção conjunta de um relacionamento forte e duradouro” Manuel Salvador, ex-Diretor da Aldeia SOS de Bicesse.
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No dia 29 de outubro deste ano, comemoramos os 50 anos da primeira Aldeia SOS fundada em Portugal. Por este motivo, queremos partilhar testemunhos daqueles que fizeram parte deste meio centenário de acolhimento.

Nome e idade

Manuel Salvador Espírito Santo, 62 anos.

Como e quando começou a sua relação com a Aldeia SOS de Bicesse? O que faz atualmente?
Tudo começou há 20 anos, quando fui visitar uns amigos à Aldeia SOS da Guarda que me entusiasmaram a candidatar-me ao cargo de Diretor da Aldeia SOS de Bicesse, então “órfã” dessa figura paterna. Fiz estágio de preparação nas Aldeias SOS da Guarda e de Gulpilhares, e só viria a conhecer a Aldeia SOS de Bicesse uns meses mais tarde, mas já a tinha no coração desde esse primeiro momento em que ouvira falar das suas Mães SOS, das suas crianças, das suas Casas e dos seus anseios.

Atualmente, sou o responsável pela área dos Jovens a nível nacional. Em Bicesse, acompanhoaldeia sos bicesse diretamente os Jovens das Casas de autonomia, e nas outras Aldeias SOS faço acompanhamento das equipas na implementação da política de Jovens e ex-Residentes. É como se a minha capacidade de entrega se tenha alargado às três Aldeias SOS, e onde quer que esteja procuro estar de alma e coração em tudo que faço.

Que memórias especiais guarda das crianças que lá cresceram?
Guardo algumas memórias de incerteza, de angústia e de preocupação, mas as mais especiais são as que estão carregadas de afetos positivos. Fui aprendendo a relacionar-me com cada pessoa de maneira singular, e a reconhecer o lado gratificante desta interacção. Inevitavelmente, me têm devolvido muito do carinho e da atenção que lhes tenho dedicado. Revela-se muito compensador pensarmos que quando começam a dá-lo é porque já o têm em abundância.

E para si, qual o momento mais marcante nos anos em que esteve ligado a esta Aldeia SOS?
Fiquei marcado por inúmeros gestos de partilha, de abnegação e de compromisso, que possibilitaram a construção conjunta de um relacionamento forte e duradouro. Todas as vezes em que me sentei à mesa da refeição familiar, sempre que foi preciso ir mais longe na invenção do sentido das frustrações, em vivências de intensa frontalidade face à renúncia e à ameaça, gesto a gesto consolidámos os valores com que nos definimos ao longo dos anos.

O que deseja para esta Aldeia SOS, nos próximos anos?
O meu maior desejo para esta Aldeia SOS é que continue a ser um local onde as crianças e jovens possam usufruir de um acolhimento maternal num ambiente familiar genuíno, onde novas mães sociais encontrem a confiança, a segurança e o suporte emocional indispensáveis para se aventurarem na sua missão educativa.