Aleppo - A história de Salma

20.12.2016 - Salma, 21 anos, vivia em Aleppo, com o marido e a filha Nadine. O marido era um cantor local, e o único que trabalhava para sustento da família. Ambos nasceram e cresceram na velha cidade de Aleppo.
aleppo

"Lembro-me de estarmos juntos ao aquecedor no inverno. Gostávamos muito de ver a neve. Por vezes, recordo o meu marido a cantar para nós, com toda a família a rir e muito unida."
Conta-nos Salma.

Em 2013, quando os confrontos armados começaram a intensificar-se, Salma e a sua família deslocaram-se para uma área mais segura. Logo após a mudança, um foguete destruíu a casa onde viviam. Durante alguns anos, Salma viveu com a sua família numa pequena casa no campo, e não demorou muito para que os confrontos chegassem à aldeia. As pessoas mal podiam dormir à noite devido aos bombardeamentos constantes.

Em 2014, o marido de Salma foi ferido na perna por estilhaços, ficando com uma incapacidade permanente que o impede de andar normalmente. Salma tinha acabado de receber a notícia sobre a segunda gravidez.

"Foi muito difícil para mim, cuidar de uma menina e de um marido ferido enquanto estava grávida. Não tinha ninguém para me ajudar porque as nossas famílias estavam a viver para leste de Aleppo. Tudo o que sei é que meus dois irmãos estão mortos. Procurar o resto da família era extremamente perigoso.", conta-nos Salma.

Os filhos de Salma não conhecem nada para além da guerra. Passaram a maior parte da sua vida jovem numa das zonas de guerra mais ativas do país. Tinham medo de sair de casa porque em tantas ocasiões, testemunharam os horrores da guerra.

"Os meus filhos estavam sempre com medo. Quando chegavam a casa, descreviam cenas que nenhuma criança deveria ver…mortos e feridos." Conta-nos Salma.

No início de 2016, Salma ficou grávida do seu terceiro filho. Os últimos dois meses de gravidez foram complicados. A cidade estava cercada e não havia alimentos, roupas, leite.

aleppo debaixo de fogo

"Tinha muita pressão e receio pelo meu bebé. Estava sempre a chorar quando pensava em como alimentá-lo ou mantê-lo quente neste lugar." Refere Salma.

Há duas semanas atrás, a criança nasceu e Salma decidiu procurar a família. A viagem foi muito longa e perigosa, sempre a correr para fugir aos bombardeamentos. Com o bebé ao colo, ainda tinha de ajudar o marido e as crianças durante três longas horas.

"Pensei que íamos todos morrer. Havia milhares de pessoas a fugir, muitas crianças desacompanhadas de qualquer adulto. Quando olhava para essas crianças, ficava com medo pelo que iria acontecer com os meus filhos se eu morresse." Comenta Salma.

A família conseguiu chegar aos abrigos coletivos e hangares nos arredores de Aleppo, onde as Aldeias de Crianças SOS estão a trabalhar diariamente para fornecer as pessoas com refeições diárias cozinhadas e leite para bebés. Salma e os seus filhos estavam extremamente cansados ​​e com fome. A sua filha de 2 anos desmaiou porque não comia há mais de 24 horas. O bebé estava a precisar de leite.

"As refeições e o leite distribuídos pelas Aldeias de Crianças SOS são extremamente importantes. Precisamos deste apoio para conseguir superar as dificuldades de viver nestes grandes hangares com falta de água, saneamento, privacidade e sistema de aquecimento." Explica Salma.

"Agora, os meus filhos têm frio devido a este inverno rigoroso, mas também estão mais fortes, saudáveis, felizes e começaram a falar sobre jogos e brincadeiras em vez de falarem sobre bombardeamentos." Conta-nos Salma.