Itália: A experiência de apoio aos refugiados mais jovens

30.06.2017 - “O foco do fortalecimento das competências para a vida – especialmente para uma faixa etária tão vulnerável – é crucial nesses tipos de cenários!”


As Aldeias de Crianças SOS de Itália iniciaram um programa de emergência no início deste ano com foco na assistência a crianças não acompanhadas, muitas das quais sofreram percursos perigosos, para chegar à Europa. Em Itália, o número de refugiados menores não acompanhados duplicou no ano passado para cerca de 26.000, em comparação com 2015.

Nos primeiros quatro meses de 2017, o número era de 5.200 – com um em cada sete migrantes que entram em Itália como crianças não acompanhadas. Cerca de 200.000 refugiados são esperados em Itália este ano*. 

“Desde maio, o número de migrante que atingiram Itália foi 32% superior ao de 2016”, diz Orso Muneghina, responsável pela resposta de emergência para as Aldeias de Crianças SOS de Itália. “A tendência é que a Itália esteja a tornar-se cada vez mais um ponto de chegada e trânsito, especialmente agora que outras rotas de entrada para a Europa, como a Grécia, estão a tornar-se menos viáveis. É também um dos mais perigosos”, acrescenta.

As Aldeias de Crianças SOS de Itália trabalha em 12 centros de “primeira receção” na cidade de Crotone, no sul de Itália, oferecendo apoio psicossocial e jurídico, formação e serviços de mediação interculturais. Uma equipa de resposta de emergência que inclui conselheiros jurídicos, psicólogos e assistentes sociais, está a trabalhar para atender às necessidades de aproximadamente 215 rapazes, principalmente de 14 a 17 anos, em centros administrativos, com organizações como a Cruz Vermelha.

Orso Muneghina, que também é um técnico de apoio de saúde mental e psicossocial para a equipa de emergência global, fala nesta entrevista a seguir as necessidades de crianças não acompanhadas e de que forma as Aldeias de Crianças SOS estão a responder ao caso. 

 
SOS: Como tem decorrido o programa, face ao crescente número de adolescentes que viajam sozinhos? 
OM: Quando um menor não acompanhado chega a Itália, depois de ter sido encontrado pelas autoridades, é enviado para um centro de acolhimento que deve garantir segurança e alojamento por um período máximo de 30 dias, de acordo com uma nova lei – fornecendo principalmente alimentos e alojamento. As crianças são então alojadas num ambiente mais permanente com apoio a longo prazo, incluindo educação e integração. O problema é que não existem locais suficientes para essas crianças em Itália. 

Trabalhamos com menores de idade que, em alguns casos, estiveram nestes primeiros centros de acolhimento durante mais de um ano. Isso tem sérias implicações em termos do seu bem-estar, porque esses lugares devem ser apenas uma solução temporária e não uma habitação a longo prazo.



SOS: Qual tem sido o papel das Aldeias de Crianças SOS?
OM: Estamos neste momento a trabalhar com menores nesses primeiros centros de acolhimento e a ajudar a capacitar as equipas, a fim de fortalecer o sistema de apoio e cuidados disponíveis. Trabalhamos com a equipa para aumentar a sua capacidade de fornecer apoio social e emocional às crianças nesses mesmos centros, e estamos a trabalhar com as crianças para ajudá-las a exercer competências-chave relevantes para elas, na sua vida diária. Queremos que sejam reconhecidos como crianças, adolescentes, pessoas. Elas não são apenas refugiados. 

Muitas dessas crianças lidam com situações de stresse, não apenas relacionadas com a sua viagem, mas também com a transição para uma nova sociedade. Com este propósito, estamos a implementar uma série de workshops de competências de vida estruturadas (nove, no total) em torno de três temas principais: identidade, relações entre pares e o futuro. 

 
SOS: Como são abordados os temas com os jovens?
OM: Um dos exercícios que fazemos, por exemplo, é pedir aos adolescentes que desenhem uma figura de si mesmos, onde pedimos que coloquem: nos braços o que eles gostam de fazer; no seu coração, o que eles amam ou sentem; e na cabeça o que eles sabem. Desta forma, conseguimos estabelecer uma conversa sobre quem são e ajudá-los a contar as suas próprias histórias aos outros.

Tivemos um jovem que desenhou cicatrizes nos braços, claramente ligadas a algo que aconteceu durante a sua viagem. Outro desenhou um corpo sem braços, aspeto que é importante para um psicólogo prestar uma atenção mais focada. Um outro adolescente desenhou uma bola de basquetebol nas mãos e disse-nos que era muito bom nisso! Como não havia espaço no centro para jogar, um dos colegas está a fazer contactos com uma associação local de basquetebol para que essa criança em particular, e outras, possam jogar.

Essencialmente, usamos estas atividades para identificar, não só as vulnerabilidades, como também os pontos fortes e as áreas em que a criança pode necessitar de um apoio especial, como suporte psicológico, apoio jurídico, entre outros.


SOS: Considera que estes exercícios são suficientes, face aos desafios difíceis que estas crianças enfrentaram nas suas viagens e vivências anteriores?
OM: A nossa intervenção é uma queda no oceano, e nós sabemos disso. Mas acreditamos que um foco nas competências para a vida, como a construção da autoestima, a gestão das emoções, a resolução de problemas, o pensamento crítico e a tomada de decisão (…) podem ajudá-los a lidar, com sucesso, com muitas exigências da vida. Tais competências poderão ser úteis para os jovens poderem aceder a alguns serviços, obter um meio de subsistência no futuro, ou ter uma posição ativa na sociedade. 



SOS: Houve muita divulgação – e crescente preocupação – sobre o risco de contrabando, abuso e exploração de crianças não acompanhadas e separadas na Europa. Partilha dessas preocupações?
OM: Sim. Uma das dificuldades que sentimos é que um número substancial de crianças não acompanhadas deixam os centros. O que não é claro para as autoridades e, consequentemente, para nós, é se estão a sair dos centros para continuar a sua viagem para outro país europeu, ou se são recrutados para atividades criminosas. Ambos são provavelmente verdade… O que é um facto é que a incidência de atividades criminosas em torno dos centros de acolhimento já foi documentada…

Essas crianças não estão numa prisão. Elas estão autorizadas a sair e a entrar, o que é bom. Também existe a possibilidade de, ao chegarem a Itália, alguns estrarem já ligados a atividades criminosas ou contrabando. Infelizmente, na ausência de rotas legais e seguras que permitam que as pessoas se movam livremente de estado para estado em segurança, isso também pode acontecer.

O foco do fortalecimento das competências para a vida – especialmente para uma faixa etária tão vulnerável – é crucial nesses tipos de cenários! Quando se encoraja o pensamento crítico, ajuda-se a fortalecer a capacidade suportado com a informação correta e o acesso aos serviços, pode incluir a decisão de não recorrerem a atividades criminosas.



SOS: Muitos dos menores acompanhados na Grécia e outros países próximos, são da Síria, do Iraque e do Afeganistão. E quanto a Itália?
OM: Há mais diversidade. Estamos a ver crianças que chegam sozinhas e viajaram do Bangladesh, bem como da Gâmbia, Eritreia, Nigéria e outros países africanos.

* Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, Itália Weekly Snapshot, 4 de junho de 2017.