Preciso de um abraço!

20.01.2017 - Esta é uma resposta do Programa de Fortalecimento Familiar, das Aldeias de Crianças SOS ativada pelos Tribunais, que consiste num espaço neutro e idóneo que visa a manutenção ou o restabelecimento dos vínculos familiares nos casos de interrupção ou perturbação grave da convivência familiar, designadamente em situação de conflito parental e de separação conjugal.


Adriana percebeu que havia algo de muito errado na sua vida e na da sua família, quando a mãe começou a atirar ao chão, a rasgar e a partir tudo o que pertencia ao pai, ou que a recordava da sua existência: roupas, papéis, revistas de motos, o telemóvel que ele já nem usava, as fotos do costume… Sentiu-se triste.

No dia em que a mãe começou a destruir os brinquedos que o pai lhe dera no Natal, e a cortar à tesoura o vestido verde e branco que recebera da avó paterna pelos anos, sentiu-se muito só. Não tinha ninguém com quem falar. Não tinha ninguém que a abraçasse. 

Foi nesse dia que Adriana sentiu que perdera ambos os pais. O pai saíra de casa para ir ao encontro da Outra. A partir daí, a mãe transformara-se noutra pessoa. 

Nas semanas seguintes não viu o pai. Quando o viu foi a correr. A PSP foi chamada. Ela ficou na sala a olhar para as notícias, enquanto os pais eram ouvidos, um a cada canto da casa. 

A avó Joana era importante na vida da Adriana, mas só havia espaço para telefonemas curtos. 

A mãe, ao lado, a exigir que a conversa fosse breve, as chamadas eram caras, que eram horas do banho, do jantar, de ir ao médico, dos trabalhos de casa, de ir para a cama (havia sempre tanto para fazer quando os outros telefonavam) e ela, baixinho, a dizer que estava tudo bem, que a avó não se preocupasse.

Para a mãe, a avó Joana era a velha. O avô João, o velho. O pai era muitas outras coisas. Os outros não contavam, eram os do outro lado. Como se ao eliminar as fotos e os vídeos da família do computador, a mãe os tivesse apagado da sua vida.



Com o tempo, passou a deitar-se mais cedo. A fazer menos barulho quando comia a sopa. A estar mais quieta. A ver televisão em surdina. Descobriu que havia uma estreita relação entre o silêncio, o estar ausente, o passar despercebida e o tempo a escorrer sem discussões, ou gritos… ou pior. Até porque os comprimidos que a mãe tomava para os nervos não faziam grande efeito. 

Com o passar das semanas, a casa foi-se enchendo de novos cheiros: a loiça por lavar no lava-loiças, a roupa a cheirar a mofo, os pacotes de vinho abertos na mesa… 

Um dia Adriana foi ouvida por alguém importante, porque a sua opinião era necessária para definir com quem ficava. Não soube muito bem o que dizer. Apenas que gostava dos dois. 

Gostava de voltar de ver o pai, de estar com ele, mas não queria que a mãe se aborrecesse com ela, por causa disso. Queria viver com ele, mas que a mãe não soubesse. E queria a mãe de volta. Aquela mãe que lhe cantava para adormecer. Que lhe atava os atacadores. Que escovava o cabelo sem a magoar.

O Sr. Juíz apareceu depois, disse-lhe que ia ficar com o pai. Explicou que a mãe ia vê-la com a presença de umas pessoas, “visitas supervisionadas”  disseram-lhe.

Passadas semanas, Adriana vestiu-se como se fosse para uma festa. O pai já lhe havia dito que o Tribunal decidira que podia ver a mãe num sítio especial, e iam visitar esse lugar. Adriana e o pai entraram numa sala. Percebeu que o pai e o “Doutor” já se conheciam. Este sentou-se no chão, e os dois ficaram lado a lado. Adriana ia começar a ver a mãe nestas sessões, naquele dia e todas as semanas. E ela chegou. Estava melhor, soube que já não bebia. 

Abraçou-a, estava ali. A pouco e pouco foi percebendo que tudo ia ficar melhor, um dia de cada vez. A história da Adriana é apenas uma das que diariamente passam pelo Ponto de Encontro Familiar. 

O Programa de Fortalecimento Familiar das Aldeias de Crianças SOS intervém com famílias biológicas capacitando-as para um cuidado protetor do bem-estar das suas crianças, prevenindo a necessidade de institucionalização. 

Iniciou-se como uma resposta social em 2012 tendo alargado o seu terreno de intervenção ao longo do tempo. Atualmente intervém em 3 concelhos (Rio Maior, Guarda e Oeiras) abrangendo mais de 150 crianças, em cerca de 100 famílias. De acordo com os dados mais recentes, existe atualmente uma taxa de 90% de famílias autónomas na proteção às crianças, após intervenção do Programa em Portugal.