Perú: ajudar as famílias a recuperar

30.05.2017 - As chuvas torrenciais provocaram inundações e deslizamentos de terras, provocando 100 mortos. 1,4 milhões de pessoas foram afetadas por esta catástrofe. As Aldeias SOS lançaram um programa de resposta de emergência para ajudar as famílias.
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• Na Aldeia de Crianças SOS de Esperanza, as fortes chuvas danificaram os telhados das casas de família provocando muitos danos nas infra-estruturas. Existem oito famílias SOS que vivem com 38 crianças.

• A Aldeia de Crianças SOS no Río Hondo é o lar de onze famílias SOS, com um total de 54 crianças. Esta Aldeia está localizada na margem do Rio Rímac. Três famílias SOS foram temporariamente transferidas para outras casas durante a pior das inundações.

• No norte do Perú, a Aldeia de Crianças SOS de Chiclayo sofreu danos quando as fortes chuvas atingiram a rede de esgotos. A fim de evitar mais danos, as 12 famílias SOS (57 crianças) deslocaram-se temporariamente para lugares seguros. Todas as famílias retornaram à aldeia e estão seguras e saudáveis.

Helene Boeser* das Aldeias de Crianças SOS da Holanda, esteve nove dias a fazer uma avaliação sobre a resposta de emergência no Peru. Esta catástrofe deixou cerca de 1,3 milhão de pessoas a necessitar de assistência, sendo que mais de 400 mil são crianças.

O programa de emergência concentrou-se na reparação dos danos nas Aldeias SOS de Esperanza, Chiclayo e Río Hondo - ajudando 860 famílias e mais de 1.000 crianças nas comunidades vizinhas. Estas comunidades estão na cidade costeira do norte de Chiclayo e no centro de Chosica e Carapongo.

Além das reparações nas casas famíliares SOS, o programa de emergência tem fornecido assistência comunitária que vai desde a distribuição de alimentos, atividades recreativas para as crianças e apoio psicológico.

Na entrevista seguinte, Helene fala-nos sobre a resposta de emergência SOS e necessidades das famílias afetadas.



Que efeito teve o desastre natural, sobre as crianças e famílias?
As crianças que conheci costumavam ter casas seguras e um lugar para brincar. Com as cheias de março, perderam tudo, até coisas básicas como roupas e livros escolares. Muitas pessoas não só perderam as suas casas, mas também os seus meios de subsistência. Conheci uma mãe com sete filhos que trabalhava na fábrica local que agora estava encerrada e porque agora não sabia o que fazer da sua vida, estava completamente desesperada. Algumas escolas já estão a iniciar os seus trabalhos e a funcionar, fazendo com que muitas crianças estejam a voltar aos seus estudos.

Claro que este desastre teve um impacto diferente dependendo das localidades. Um dos lugares que visitámos foi uma aldeia na montanha, Barba Blanca, onde o deslizamento de terras afetou bastante as crianças e a comunidade local. Muitas crianças estão com problemas de sono e outros efeitos desde que este desastre natural atingiu os seus lares.



A Helene esteve no país, dois meses após as piores inundações e deslizamentos de terra. Há sinais de recuperação?
As inundações e deslizamentos de terra afetaram aproximadamente 1,4 milhão de pessoas no Peru, e um terço são crianças. Nas comunidades onde estamos a trabalhar, as famílias cujas casas foram perdidas ou danificadas ainda estão a viver em tendas e muitas vezes não há eletricidade e água potável. Quando o próximo inverno chegar, as necessidades serão ainda maiores. 

As condições de água e saneamento não são boas: não há banheiros e chuveiros suficientes. As pessoas apenas podem confiar na água engarrafada. Em Carapongo, o rio que passa ao lado das casas de madeira existentes está ligado ao sistema de esgoto. Portanto, há riscos reais para a saúde das crianças.

As Aldeias de Crianças SOS no Perú têm distribuído alimentos, água e kits de emergência. Agora continuamos a oferecer atividades de creche e lazer para crianças entre os 2 e os 15 anos, como desportos, oficinas e artes. Estas atividades são importantes para a segurança e bem-estar emocional das crianças. Também estamos a trabalhar no sentido de manter as crianças no caminho da educação. Por outro lado, estas atividades também ajudam os pais, dando-lhes tempo para reconstruir as suas casas e a recuperar os seus meios de subsistência. Todos os dias as mães da comunidade preparam sobretudo cozidos para as crianças. 



As aldeias SOS afetadas estão totalmente restauradas?
As reparações mais importantes estão feitas. Por exemplo, a eletricidade e a água foram restauradas e todos os danos que podem afetar a segurança das crianças foram reparados. No entanto, o impacto sobre as comunidades foi muito violento, de forma que as Aldeias SOS no Peru tiveram de desviar parte do orçamento previsto para reparações, para fornecer alimentação, cuidados psicológicos e atividades para as crianças e famílias em risco. Alguns dos pequenos reparos foram adiados para que o dinheiro possa ser utilizado nas necessidades mais urgentes.


Pode identificar outros desafios durante este período de recuperação?
As Aldeias de Crianças SOS no Peru estão a abrir creches e a organizar atividades para as crianças, da maior importância para a recuperação de traumas. Estas atividades também ajudam os pais enquanto começam a reconstruir as suas casas, de forma a terem mais tempo para procurar e conseguir meios de subsistência. O apoio emocional e social estão disponíveis para todos os participantes do projeto. Na minha percepção, há poucas atividades para crianças e adolescentes. Especialmente, os meninos estavam sempre a lutar. É muito difícil crescer num ambiente rodeado por pedras, passar pela puberdade e ser resistente ao mesmo tempo.


* Helene Boeser trabalha na angariação de fundos institucional para os programas de emergências nas Aldeias de Crianças SOS da Holanda.