Uma Mãe SOS que viveu para amar os outros

30.11.2017 - “Presta-se homenagem hoje a uma grande Senhora reconhecida por todos como tendo feito tudo para ficar presente na memória daqueles que lhe eram mais próximo, marcou-os com dedicação, sorrisos e valores humanos difíceis de encontrar nos tempos modernos."
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Destaca-se a vida da Mãe Etelvina, a forma como a viveu, dedicando o seu tempo a uma missão que praticou de forma religiosa, quase sobre-humana.

Foi Mãe – o tempo todo da sua vida adulta foi dedicado a ser mãe. E esta palavra adequa-se pouco, quanto mais se pensa no que é ser mãe hoje em dia, pois foi muito mais do que isso.

Se ser mãe é cuidar dos seus filhos, a Mãe Etelvina fez isso com 20 crianças que abraçou quando lhe foram entregues – e que cuidou com afetividade- os que se lembram dizem que quando chegaram à Aldeia a chorar a Mãe Etelvina dirigiu-se a eles – “Não chores porque eu estava à tua espera”. Fazia-o com um sorriso de alegria pois era mais um filho para educar, e o que a Mãe Etelvina gostava de educar.

Se ser mãe é educar, a Mãe Etelvina sempre que podia brincava com os filhos na rua e em casa dinamizava jogos, mas sobretudo deixava brincar gostava de os ver rir. Conseguia corrigir os comportamentos sem levantar a voz e só com um olhar quase mágico passava uma mensagem rapidamente percebida, resolvia os conflitos deixando sempre uma palavra de aconchego para que ninguém pensasse mal do outro. Era conciliadora.

Se ser mãe é proteger, conseguia conciliar vontades das diferentes partes, mesmo em grandes conflitos nunca se distraia do seu objectivo pois esse foi sempre as crianças e educá-las, obrigava a um esforço de manter os valores da paz. Desconhece-se que tenha promovido um desentendimento entre alguém, preferia resguardar-se e reflectir para depois falar.

Se ser mãe é estar atenta, foi sempre muito presente na vida de todos os filhos que recebeu, sempre extramente preocupada em saber onde estavam, mesmo depois de saírem, como estavam. Era difícil contactar, e a Mãe Etelvina ia procurar onde fosse preciso e desconhece-se que tenha deixado algum sem cuidado, alguma criança sem colo ou algum dos filhos já adultos sem ajuda.

Se ser mãe é dar carinho, a mãe Etelvina tinha sempre o cuidado de cumprimentar (e ensinar a cumprimentar) com dois beijinhos e umas festas nas bochechas sempre que era a hora de despedida da escola e novamente no reencontro do final do dia. Contar historias para dormir era um prioridade dedicada aos mais pequenos, mas os mais velhos também não as deixavam de ouvir, o beijinho antes de adormecer era obrigatório para todos. O seu quarto era um espaço privilegiado de brincadeiras e estar ao pé da mãe era um momento que sabia gerir muito bem, pois todos tinham esse direito.

Se ser mãe é ajudar a conhecer o mundo, a Mãe Etelvina saia muito frequentemente com as crianças, levava sempre alguém quando ia a Lisboa ou a outro local com interesse, apresentando um mundo cheio de curiosidades e possibilidades para cada um. Os medos foram combatidos com conhecimento e muito afecto.
Se ser mãe é ser corajosa, a Mãe Etelvina nunca rejeitou um desafio fosse ele em educar uma criança ou lutar pelos seus direitos (entenda-se dos das crianças que também eram os dela), fazia-o de uma forma muito assertiva, resguardando-se primeiro, reflectindo, e depois confrontando de forma directa e dialogante, não se conhece quem lhe tenha guardado rancor, quando falava fazia-o com tanta serenidade que facilmente era escutada, compreendida e aceite.

Se ser mãe é ser querida e aceite, a Mãe Etelvina conseguia fazer do Natal uma missão com vários meses, construía as prendas para oferecer, preocupava-se muito cedo em convidar todos os filhos e em fazer com que estivessem presentes. Para a Mãe Etelvina um Natal em família era com todos os seus filhos, mais tarde genros/noras e depois os netos.

Nestes 82 anos de passagem pela vida, deixou em cada um de nós uma marca por mais breve que tenha sido esse momento. E não era só pela lindíssima cor dos seus olhos azuis, mas pela profundidade e sinceridade com que olhava os outros, fazia-nos querer ouvir mais.

Mãe Etelvina pela forma sentida e verdadeira com que concretizou a sua missão agradeço enquanto cidadão, por ter educado 20 crianças a quem dedicou 47 anos da sua vida, educando-os todos, como cidadãos de pleno direito.

Agradeço igualmente as memórias que deixa e perdurarão para sempre como exemplo digno e ético na forma como exerceu a actividade de mãe social, cuidaremos de recuperar memórias para que a sua história e o seu exemplo sirvam para desafiar o futuro e na forma como o queremos concretizar, mudando vidas.

Termino esta homenagem apenas com uma expressão que quando conversei com alguns dos filhos e perguntava do que lembravam da sua mãe, como era? O que fazia- responderam de forma muito impulsiva ”Era a minha mãe não sei o que dizer mais, era a mãe”.

Assim não nos despedimos hoje de uma mãe social mas de uma filha, irmã, mãe, e avó”
Mário Baldoin, Diretor da Aldeia SOS de Bicesse.