O Anjo da Guarda

15.07.2016 - O final da Primavera foi marcado por um dia muito especial para os técnicos e famílias da Aldeia SOS da Guarda. O dia em que recebemos um grupo de três irmãos, que iriam ser acolhidos nesta Aldeia: a Rafaela, de 11 anos, a Raquel, de 3 e o João, um bebé com apenas 6 semanas! O João é o bebé mais pequenino a residir nas Aldeias de Crianças SOS em Portugal.
A criança mais nova das Aldeias SOS

Numa das casas de família da Aldeia ficariam agora estes três irmãos juntamente com dois rapazes de 14 e 11 anos, que tinham chegado há poucos dias. A Aldeia SOS da Guarda, para além de ficar maior, ganhou um novo encanto, com a chegada deste bebé.

“Traz-nos uma alegria nova, até para as outras casas e crianças. Não é tão habitual recebermos crianças tão pequeninas…É o nosso menino Jesus, como dizemos! Quando chegam novas crianças à Aldeia SOS, é sempre um momento especial. Convidamos as crianças todas, fazemos uma festinha na casa, com a Mãe Social, com os técnicos … conta emocionado, Daniel Lucas, Diretor da Aldeia SOS da Guarda.

Entre educadores, psicóloga, assistente social, Tias e Mães SOS, todos deram uma ajuda nos primeiros dias de adaptação destas crianças, sobretudo nos cuidados com o bebé.  


A Mãe SOS
Apesar do apoio de todos, o maior desafio foi lançado a Lisete: cuidar destas cinco crianças a tempo inteiro, dando-lhes amor e um Lar. 

Lisete (na foto com Raquel ao colo) viveu nos últimos anos em Angola, país onde nasceu. Já conhecia a Aldeia SOS de Benguela, onde fazia voluntariado aos fins de semana. Mãe de um rapaz e uma rapariga, já adultos, regressou a Portugal recentemente para acompanhar a filha na entrada para a universidade. 

“Tive sempre este desejo de dar algum apoio em termos de ação social com crianças”, conta esta Mãe, de 51 anos, que por este motivo se candidatou ao lugar de Mãe SOS. Depois de um longo e exigente processo de recrutamento, foi escolhida para esta missão: “Não é um trabalho, é uma dádiva”, comentou.

Sobre o trabalho das Aldeias de Crianças SOS, Lisete refere: “É um meio de acolhimento de crianças diferente e o mais apropriado nestas questões. Aqui elas têm um tratamento individualizado, têm um Lar.”  

No domingo, dia 12 de junho, a sua vida mudou. “Estou aqui de coração aberto a fazer aquilo que eu gosto e fiquei muito sensibilizada com esta família. Cheguei às 19h30 da noite e fiquei logo com as crianças”, conta Lisete. Poucos dias depois de iniciar esta experiência, (muitos deles sem dormir) Lisete já afirma: “É muito gratificante!”

Gerir afetos
Lisete falou-nos da sua experiência enquanto Mãe SOS e contou como as crianças mais pequeninas são as que mais requerem cuidado. E, mais do que os cuidados que o bebé requer, é a Raquel, de três anos, que mais sofre com esta mudança: “Ela, não sendo bebé, é uma criança que requer muita atenção e muito carinho, muito colo! (…) Os três mais velhos acabam por se unir e então tenho que estar mais presente com ela. Por exemplo, hoje desde as 6 da manhã até às 9 estive sentada no chão com ela, com o bebé ao lado, a fazer puzzles, porque ela acordou e não queria de forma alguma ir para a cama…”

Apesar de pouco, o tempo já vai ajudando na adaptação de Raquel, como conta Lisete: 
“Nos primeiros dias, ainda não tinha uma pessoa de referência. O banho era terrível, o jantar era terrível e agora já não… Já brinca, já dá gargalhadas no banho, já noto ali segurança nela. Ela diz muitas vezes que vai cair e eu já a fiz perceber que quando eu seguro nela, ela não cai, não se magoa.”


Os dias são marcados por emoções fortes que, apesar das mudanças, vão sendo melhores, de dia para dia. “Ontem fomos à festinha dela do colégio e quando eu cheguei ela saiu logo a correr para mim… “Mãe, Mãe, Mãe!” e veio para o meu colo... Senti arrepios!”, conta Lisete, emocionada. No entanto, esclarece: “Ela sabe que não sou sua Mãe, porque por vezes acorda à noite com pesadelos e chama pela Mãe, explicando que é a outra Mãe”.

Tal como em todas as Aldeias SOS, o apoio da Educadora, da Assistente Social, da Psicóloga e dos restantes colegas tem sido essencial: 

“Esse apoio é importante porque ajuda a equilibrá-los também. É uma parte que conseguem trabalhar e que se calhar a Mãe com cinco, não tem facilidade … Eu às vezes deito-me à noite e sinto que se calhar não tive tempo suficiente com o Sérgio ou com a Rafaela, porque os outros mais pequeninos absorveram-me de tal forma que eu não consegui... É assim!”, partilha Lisete.

Inevitavelmente, Lisete fala do bebé com um carinho especial: “Ele é um doce, é irresistível... Muito simpático… E é um relógio, à horinha dele faço biberão, mudo-lhe a fralda e fica.”
 
Mesmo sem dormir há várias noites, o amor de Lisete já ganhou forma e é contagiante: “Às vezes deito-me super cansada: a Raquel chora durante a noite, eu vou à cama dela e venho, depois ele acorda, eu mudo-lhe a fralda, dou o biberão e quando ele se ri para mim, o cansaço vai embora… É mágico!” 

O bebé também já parece reconhecer quem cuida dele todos os dias: “… já conhece a minha voz, se ele estiver na espreguiçadeira e eu passar a falar, ele segue-me, para onde eu for… mesmo à noite quando acorda a chorar, eu falo para ele e ele começa a rir… é reconfortante, e é isso que vale!”, conta emocionada.
 
Para Rafaela, a mais velha desta fratria, o desafio não é menos intenso e o seu sentido de proteção parece estar sempre presente, como nos conta Lisete: “A mais velha é muito protetora com eles, está sempre a observar os meus passos... ainda está a aprender a confiar em mim.”

No entanto, Rafaela vai mostrando estar recetiva a este novo amor: “Por exemplo, quando saiu agora para ir para Rio Maior com as outras crianças, foi colocar a mala ao carro e veio para trás para me dar um abraço. Não chegava a uma semana de contacto comigo, mas teve aquele gesto que para mim, foi muito especial…”, partilha feliz, a nova Mãe SOS.


Uma segunda oportunidade
A entrada numa Aldeia SOS é, para qualquer pessoa, uma mudança intensa. Sobretudo para as crianças, o apoio nos primeiros dias na Aldeia são essenciais para o seu equilíbrio emocional e bem estar. 

É fundamental o apoio da equipa técnica pois, com estas crianças e jovens, vêm traumas de vivências injustas de violência, negligência, entre outras. Para cada criança, é delineado um projeto de vida, focado nas suas necessidades e na construção de um futuro feliz e seguro. Queremos que as crianças voltem a ser crianças e que lhes seja devolvida a infância que perderam.

Para uma nova Mãe SOS, como Lisete, aqui começa uma nova vida, mesmo para os filhos que estão lá fora: “É uma segunda oportunidade de ser Mãe, numa altura em que podia ser avó. Mesmo o meu filho pergunta se o bebé me deixou dormir… Eles próprios já criaram uma ligação. E ela vem muitas vezes ver o bebé.”

Para o futuro, o nosso desejo é que estes irmãos permaneçam juntos e que a sua estabilidade e segurança sejam garantidas, acima de tudo. 

O desejo e o compromisso de Lisete para estas cinco crianças é claro: “Dou-lhes o meu amor, porque quero o bem deles e explico-lhes isso… Desejo-lhes o melhor. O mesmo que desejo para os meus.” 

* Nomes fictícios, para proteção da privacidade das crianças envolvidas.