A história de Paula, de Bicesse à Dinamarca

Paula convidou-nos* para tomar café e comer bolo em sua casa. À sua frente tem um grande livro de fotos e um iPad pronto para ilustrar a história que nos vai contar. Paula tinha 1 ano quando, acompanhada dos seus seis irmãos, foi viver para a primeira Aldeia SOS de Portugal, em Bicesse. Hoje, Paula vive na cidade de Allerod, na Dinamarca e foi lá que deu esta entrevista às Aldeias de Crianças SOS locais.

Sete 
bocas famintas para alimentar 
A história começa em 1967, numa aldeia nos arredores de Lisboa. Na época, a Mãe de Paula tinha morrido na cama da maternidade, após dar luz os seus dois filhos gémeos. Ela estava fraca há algum tempo e não aguentou mais um parto.  
 
O pai de Paula ficou com dois recém-nascidos e cinco irmãos, com idades até aos onze anos e nenhuma forma de alimentar esta grande família. O leite era muito caro e por isso era difícil cuidar dos bebés e restantes filhos. Dadas as dificuldades, não demorou até o pai procurar ajuda junto das autoridades locais, onde foi conduzido para as Aldeias de Crianças SOS que estavam a terminar a construção da primeira Aldeia SOS em Portugal, em Bicesse.  
 
 
Uma Aldeia cheia de amigos 
Paula não se recorda da mudança e da entrada na Aldeia SOS. Sabe apenas o que lhe contaram os seus irmãos mais velhos. 
 
“A minha irmã ganhou o primeiro par de sapatos quando nos mudámos para a Aldeia SOS, com seis anos. A vida por lá era muito diferente daquilo que estávamos habituados. Era uma vida boa e nunca sentimos falta de nada”
, diz Paula enquanto busca as memórias da infância no livro de fotos.  
 
As experiências de que mais se lembra são a excursão anual de Natal, quando iam ao circo, e a colónia de férias do Meco, no verão: “Toda a Aldeia se mudava para umas casinhas próximas da floresta e da praia, e brincávamos o dia inteirinho. Era a melhor parte de crescer na Aldeia SOS; tinha amiguinhos por todo lado. Se nos zangássemos com um, havia sempre outro para brincar.”

Irmãos biológicos ficam juntos 
Quando as Aldeias de Crianças SOS acolhem irmãos, asseguram-se sempre que estes ficam juntos na mesma casa. Também foi o caso de Paula e dos seus seis irmãos. Além deles vieram mais duas irmãs de uma outra família e um menino que estava sozinho. 
 
“Estou muito grata por não termos sido separados e enviados para lugares diferentes, pois os meus irmãos são uma parte importante da minha história. Ainda hoje temos um laço muito forte e falamos com muita frequência”, diz Paula. 
 
Nenhum dos sete irmãos tem contacto com o pai biológico. No entanto, voltam a Bicesse, todos os anos em outubro, para celebrar o aniversário da Aldeia SOS, junto das crianças que ali residem hoje e outros antigos residentes.  
 
 
Um amor dinamarquês 
Com 18 anos, Paula mudou de casa. Conseguiu um emprego como assistente de escritório e encontrou um apartamento onde foi morar com uma amiga da Aldeia SOS. “Eu estava tão orgulhosa. Sentia-se adulta e livre e estava ansiosa para poder tomar as minhas próprias decisões sobre a minha vida. Aliás, ser adolescente é isso, não é?” diz ela, sorrindo.  

Um dia, como tantos outros, Paula foi sair com os amigos depois do trabalho e conheceu Kent, dinamarquês que estava a fazer um Interrail pela Europa. Os dois jovens conversaram e ficaram namorados. Depois de três anos de visitas durante as férias passadas em conjunto, conversas caras de telefone e trocas demoradas de cartas, Paula foi morar com Kent na Dinamarca. Ela tinha 24 anos quando casaram e hoje têm dois filhos, com 19 e 22 anos.  
 


*Entrevista realizada pelas Aldeias de Crianças SOS Dinamarca. Agradecemos à Paula a simpatia e disponibilidade em partilhar a sua comovente história na nossa revista.