Manuel Matias

58 anos

"Guardo muitas e boas recordações desse tempo em particular dos momentos de convívio com os jovens de então..."


Como e quando começou a sua relação com a Aldeia SOS de Bicesse? O que faz atualmente nas 
Aldeias de Crianças SOS/ ou fora?

A minha relação com a Aldeia de Crianças SOS de Bicesse iniciou-se mais activamente a partir de 1976, ano em que terminava o Secundário e decorreu o primeiro Acampamento de férias SOS no Meco. Conheci a Aldeia de Crianças SOS por dentro ainda antes de apreender melhor o conceito e a missão, pela minha ligação familiar a uma das sócias fundadoras Dra. Palmira Cabrita Matias, minha tia, pelo envolvimento dos meus pais, mas também através da amizade com as crianças e jovens residentes de então da Associação das Aldeia SOS de Portugal que até à data se identificavam com a primeira Aldeia que este ano irá celebrar 50 Anos.

 
Nos anos seguintes e durante o período em que frequentei a Universidade, fui como muitos voluntários da Al
deia SOS de Bicesse, explicador (…de matemática). Posteriormente, após a minha licenciatura, e a convite das fundadoras fui-me envolvendo enquanto voluntário, a par da minha actividade profissional, no planeamento e controlo de gestão da Associação, tendo mais tarde integrado vários Conselhos Fiscais e Directivos da mesma. Mais recentemente, de há 4 anos para cá assumi funções de Director de Marketing e Angariação de Fundos estando actualmente como responsável das relações com organizações.


Que memórias especiais guarda das crianças que lá cresceram?
Guardo muitas e boas recordações desse tempo em particular dos momentos de convívio com os jovens de então: Festas de Aniversário da Aldeia SOS de Bicesse, Santos Populares e alguns bailaricos memoráveis no salão. Posteriormente as Tias (…eram assim que eram conhecidas as sócias fundadoras) pediram-me que acompanhasse mais os jovens em saídas culturais ao fim de semana. Ainda hoje me correspondo com muitos dos ex-residentes de então e fico feliz de saber que muitos são hoje mães e pais de família muito responsáveis e enquanto cidadãos um exemplo a seguir pelas actuais crianças e jovens que acolhemos e educamos nas 3 Aldeias SOS em Portugal.
 
Fui compreendendo que, para além da realidade da Aldeia SOS enquanto edificado de casas familiares envolvido por bonitos jardins e espaços onde as crianças podem brincar em segurança, existe uma realidade igual ou mais importante: a uma comunidade de crianças residentes actuais e passadas, desejosas de se afirmar e partilhar na simplicidade, aspirações e momentos de felicidade com cuidadores e visitantes.


E para si, qual o momento mais marcante nos anos em que esteve ligado a esta Aldeia SOS? 
 
Um dos mais emotivos foi sem dúvida o da morte da fundadora Dra. Maria do Céu Mendes Correia. A Associação em 1964 e a Aldeia de Crianças SOS de Bicesse em 1967 nasceram da sua visão e paixão de acolher e educar muitas crianças em situação de grande vulnerabilidade social segundo o modelo pedagógico inovador para a época das Aldeias de Crianças SOS do médico austríaco Dr. Hermann Gmeiner. Foi notável a enorme capacidade que teve de envolver muitos colaboradores, sócios e simpatizantes na concretização do seu sonho que edificou, dirigiu e acompanhou até à hora da sua morte.

A Aldeia de crianças SOS de Bicesse foi por ela pensada e desenvolvida tal como ainda a conhecemos hoje. Nas suas exéquias fúnebres, na Igreja de Bicesse em Março de 2010, sentiu-se de forma especial a presença dos muitos ex-residentes, colaboradores, simpatizantes e benfeitores que quiseram vir prestar-lhe a sua devida e sentida homenagem.


O que deseja para esta Aldeia SOS nos próximos anos?
Desejo que permaneça fiel aos príncipios da obra de proporcionar um lar de amor e uma família a muitas crianças que precisam e merecem ter uma infância feliz, e enquanto comunidade das crianças que aí habitam que se abra muito à Sociedade Portuguesa e proporcione oportunidades de desenvolvimento pessoal e comunitário num ambiente protector das crianças e respeitador dos seus direitos.

Que proporcione condições para a plena realização pessoal dos que se dedicam a elas, referindo-me em particular às Mães SOS, mas também ás equipas técnicas que as apoiam. Que crie espaço para o apoio necessário de muitos amigos, benfeitores e voluntários que assumiram no passado e assumem no momento presente o papel essencial de tornar a obra sonhada realidade e a desenvolver para que mais crianças possam ter um futuro feliz e um papel activo e responsável na construção de uma sociedade mais justa próspera e solidária.